A saída foi me apaixonar. Não teve jeito, foi a única forma que mesmo sem você por aqui, eu poderia te ter, pelo menos aqui dentro. Era tarde de outono, quinta feira. Você costumava ir ao mercado às quintas feiras, porque eu sempre passava por lá e te via. Ficava sentado num banco na pequena praça de alimentação com capuz na cabeça e uma revista escondendo meu rosto. Coisa de gente obcecada sabe? Nunca fomos tão chegados para passarmos horas batendo papo no telefone e muito menos ficar conversando pela internet até às quatro da manhã. Eu sempre todo errado e você sempre certinha. Frase clichê pra caralho. Mas quem diabos se importa? É amor. Quando se trata de amor, é clichê. Você sempre estudiosa, e eu sempre roubando os resumos dos meus colegas para estudar. Nunca tive o trabalho de passar uma tarde inteira trancafiado dentro de casa estudando todas aquelas fórmulas ridículas de física e nunca tentei fazer mais de duas vezes um exercício de matemática. Você estava no corredor dos doces quando eu resolvi fazer alguma coisa. Levantei-me, enrolei a revista e coloquei-a em meu bolso. Eu usava um moletom e tirei o capuz que cobria meu rosto parcialmente. Você sempre culta, foi até um montinho de livros que estava empilhado em cima de um caixa, e procurou algum de seu interesse, nada. Passei por perto de ti e você nem notou. Senti teu cheiro e senti vontade de ficar preso naquele momento para sempre. Olhei para trás e dois seguranças vinham atrás de mim. Corri o mais rápido possível e eles me derrubaram. A porra da revista que eu estava lendo era de uma loja que ficava ao lado da pequena praça de alimentação do maldito mercado. Eu nem percebi que a revista não era minha e assim acharam que eu tinha roubado aquela merda. O que diabos eu iria querer com uma revista que falava como perder quinze quilos em três meses? Paguei o maior mico, o maior mico da minha vida. Você estava bem atrás e quando os filhos da puta me derrubaram, eu vi um sorriso aparecer em teu rosto. Um riso de deboche. Tu conteve-se, mas não riu. Depois desse dia, todas as vezes que eu passava por você eu abaixava a cabeça. Foi então o dia que eu resolvi fazer tudo mudar. Resolvi ir falar com você. E o que você disse? Tu me chamaste de ladrão. Ladrão. Desde então nunca mais cruzamos e eu nunca mais fiquei escondido no mercado só para te ver. Eu, crente de que todos os meus caminhos tortos um dia iriam terminar na porta da sua casa, vejo que estou à beira do abismo. E para não te sentir longe demais, eu me apaixonei.
(Source: versificado)




